Mas está a lê-lo sem qualquer dificuldade. E, no entanto, como é
possível? O que gera o desenho rigoroso de cada frase, palavra e
letra no ecrã? Aproxime-se do seu monitor e descubra a resposta. A
sério, olhe mais perto... Isso é muito longe! Mais próximo, até que
o ecrã ocupe toda a sua área de visão. Não, não vai fazer figura
triste, afinal está a participar numa experiência científica. O seu
nariz tem de estar a menos de um palmo deste texto. Chegue-se mais e
concentre-se bem no ponto final desta própria frase.
Então, viu uma grelha de milhares de quadradinhos pequeníssimos por
trás do ponto final? Pois todos e cada um dos elementos que
preenchem o seu ecrã são criados por esta vasta tapeçaria
electrónica - uma tapeçaria de que o píxel é rei e senhor.
A UNIÃO FAZ A FORÇA
É natural que já saibamos que o píxel é o mais pequeno elemento
constituinte da imagem criada por um computador, visto que há
décadas que é usado como unidade de medida em processamento gráfico.
Mas a sua presença estende-se também a outros campos, como a
televisão, o cinema e até a imprensa. De facto, sempre que há
necessidade de recriar uma figura através de conjuntos de pontos, o
fiel píxel entra em acção e sincroniza-se habilmente com centenas,
milhares ou milhões de outros píxeis, cada qual com o seu tom de
cor. Porém, mesmo todos juntos, não conseguem fazer mais do que
gerar um padrão. O resto fica a cargo do mais avançado sistema de
identificação de padrões de sempre: o nosso cérebro.
Movido por um instinto de sobrevivência constante, o cérebro humano
tenta por todos os meios fazer sentido do mundo que nos rodeia,
sobretudo através da visão, um dos elementos mais activos de recolha
de informação exterior. Quando vemos um pauzinho de madeira no chão,
pouco ou nada nos diz. Se pusermos outro pauzinho em cima dele, pode
lembrar-nos uma cruz. Com mais cinco pauzinhos, facilmente podemos
construir uma figura humana. Desde as gigantescas figuras do
planalto de Nazca, no Peru, aos logótipos humanos dos estádios, a
nossa sociedade está a par deste fenómeno. A partir de uma certa
distância, o cérebro pode transformar em imagem real o que aparenta
ser uma mescla de pontos indistintos.
SALADA DE PÍXEIS
Foi a aplicação deste efeito por via electromecânica que levou no
início do século XX ao nascimento da televisão, cujo ecrã, apesar de
dividido em linhas, tinha no píxel o seu mais pequeno elemento
individual. Mas só em 1965, com dois artigos técnicos apresentados
pelo engenheiro Frederic C. Billingsley, é que o seu nome se viria a
consolidar oficialmente na comunidade científica como "píxel", ou
seja, a fusão de "pix" (abreviação de "picture") com "el"
(abreviação de "element"). Trata-se, portanto, de um "elemento de
imagem", mas não foi fácil chegar-se a este consenso. Nas décadas
anteriores, chamou-se "ponto", "posição", "amostra", "unidade",
"parte", "porção" "quadradinho", "valor elementar de tom", "pequena
área de brilho variável" e até "mosaico de células de selénio",
entre várias outras designações.
Depois de pôr ordem terminológica na casa, o píxel depressa se
propagou por toda a informática, em especial como medida de
resolução de ecrãs. Dos 320 píxeis de largura por 200 de altura do
IBM PC, em 1981, ao incrível terapíxel (100 000 x 100 000) do
moderno sistema de imagiologia médica ScanScope, o píxel foi, é e
continuará a ser um elemento basilar invisível mas sempre
indissociável do nosso trabalho diário no computador. E há quem o
tome como ponto de partida para uma verdadeira obra de arte, como
comprova
este extraordinário vídeo. Pois, afinal de contas, tudo começa
por um ponto.