Falta um minuto! O estrado do palco ressoa com os passos apressados
das crianças, aos tropeções em adereços, fitas, cordas e pedaços de tecido
espalhados no chão. De repente, tudo pára por entre risos abafados:
chegou a professora. Ela observa os miúdos, ajeita-os um a um, olha
para o relógio — está na hora. "Muita merda!", diz-lhes sorridente,
para espanto de toda a criançada. Algumas até tapam a boca,
sem acreditar no que acabam de ouvir. Mas há cento e setenta anos, tapariam a boca por um motivo muito
diferente.
14 de Maio de 1835. É noite de quinta-feira à entrada da Sala
Richelieu, junto ao grandioso Palais-Royal, em Paris, onde enormes
cartazes anunciam a peça em cartaz. Trata-se de "Angelo", da autoria
do famoso dramaturgo Victor Hugo, estreada há cerca de quinze dias
com sucesso junto da crítica e do público. No entanto, as preferências de
uma audiência são sempre imprevisíveis, e não é em duas semanas que
se pode confirmar o êxito duradouro de uma peça. Mas, a
caminho do Palais-Royal, os actores já têm essa certeza quando
sentem o odor penetrante dos montículos de excremento
espalhados ao longo da estrada. Viram a esquina para o teatro e eis que deparam com filas de belíssimas carruagens e coches, puxadas por
dezenas de cavalos de pêlo lustroso à luz de inúmeras lâmpadas de
gás... cujo calor intensifica o cheiro nauseabundo das carradas de
fezes equestres que minam toda a praça.
O AROMA DO SUCESSO
O fedor é tão pungente que os actores têm de tapar nariz e boca ao
atravessarem o pátio. Mas, para eles, é um momento de felicidade.
Quanto mais esterco no chão, mais público de alto gabarito está
presente e mais lucro a companhia encaixa. Ao longo dos próximos 62
dias em que a peça ficará em cena, a expressão "Merde!" será o voto de
boa sorte mais trocado entre os actores desta trupe francesa antes da entrada em
palco.
Sem dúvida que não foi nesta ocasião que este bizarro voto fecal
teve a sua origem, pois já advinha da tradição circense dos tempos medievais, mas o ímpeto cultural do
Neoclassicismo francês instaurou definitivamente este costume também
em Portugal, não só no teatro, mas igualmente na dança, na música e
mesmo no ensino superior. Curiosamente, neste último caso, o voto
implantou-se por superstição — quem deseja "muita merda" antes de um
exame está a tentar trocar as voltas à sorte, visto que desejar
"boa sorte" trará inevitavelmente azar. Mas até nisto o voto tem o
seu quê de literal: se o exame foi inesperadamente fácil, afinal
aquela merda toda acabou por funcionar. Daí que tenha sido cagativo.
"ESPERO MESMO QUE PARTAS UMA PERNA!"
Enquanto portugueses e franceses se entretinham com evocações
escatológicas, os membros do teatro anglo-saxónico acabariam por
trocar votos sinceros de sadismo. A famosa expressão "break a leg" é
parte integrante da recente tradição dramática britânica, mas não
parece ser tão literal como a nossa expressão equivalente. De facto,
não há registo de intérpretes que tenham fracturado a tíbia
depois deste desejo, mas imensos houve que fizeram várias vénias
perante os aplausos do público no fim da actuação, "quebrando" a
postura normal da perna.
Então será assim tão simples a explicação da origem desta frase
inglesa? É uma das mais óbvias, mas o palco vive de mistérios. Teria afinal
nascido da má tradução alemã de um voto de boa sorte judeu? Seria uma referência às pernas das cadeiras partidas
quando o público dos tempos de Shakespeare as fazia bater no chão
durante os aplausos? Ou até mesmo uma alusão à actriz Sarah
Bernhardt, que nem com uma perna amputada deixou de ter sucesso em
palco?
Seja qual for a resposta, a nossa expressão portuguesa, essa sim,
tem uma origem comprovada de que nos orgulhamos de contar, como aqui faz com brio
profissional o actor brasileiro Javert Monteiro num vídeo breve,
directo e taxativo. Pois não há tempo para mais merdas, o
espectáculo tem sempre de continuar.