Centenas de pedaços de lama rodopiam violentamente por entre a
espessa poeira, rasgada de lés a lés por uma turba de corpos humanos
em desvairada correria. O estrondo na terra é ensurdecedor, o
berreiro retumba pelos campos lavrados, o atropelo colectivo
desenfreia-se em mãos, pés e rostos empapados de suor e sangue
pisado. Mas nada disso incomoda, pois reina a adrenalina nesta
multidão enlouquecida, catapultada pela perseguição a um único
objecto redondo que lhes vai saltitando diante dos negros pés
descalços.
TUDO AO MOLHO E FÉ EM DEUS
Era um dos mais ansiados eventos para as populações rurais do século
XIII. Em dias de celebração religiosa, duas aldeias encetavam um
desafio mútuo: fazer chegar uma bola ao átrio adversário, fosse qual
fosse o número de participantes e por qualquer meio necessário.
Durante horas, centenas de homens e mulheres trocavam as agruras da
vida medieval pela dureza do confronto corpo a corpo em prol da
vitória da sua comunidade, dando largas a rivalidades recalcadas ao
longo do ano. A bexiga de porco usada como bola dificilmente
chegaria intacta ao fim do evento, mas o seu valor histórico como
legado de um desporto universalmente milenar manteve-se inabalável.
BOLAS, A MINHA CABEÇA!
Já na Grécia Antiga era muito popular o episkyros,
inicialmente jogado com uma bola de linho e pêlo ou, mais tarde, com
bexigas de suíno. Os romanos deram-lhe seguimento com o seu
harpastum, cuja bola revestida de pele animal possibilitava um
jogo muito apreciado pelas hostes militares como exercício físico. E
certamente que não seria raro assistir-se ao alegre pontapear de
cabeças humanas no calor da vitória dos combates mais intensos.
O invólucro de couro manteve-se até à implantação do futebol como
desporto profissional, mas foi só com o processo de vulcanização da
borracha, idealizado por Charles Goodyear no século XIX, que a bola
de futebol granjeou uma forma suficientemente rígida para que os
futebolistas pudessem usar de algo mais do que simples sorte para
passar, fintar e rematar.
Foi esta consolidação de forma que finalmente levou ao registo nas
Leis do Jogo de 1873 das primeiras dimensões oficiais da bola de
futebol, cuja obrigatoriedade de circunferência entre 68,6 cm e 71,1
cm se mantém na actualidade. Mas as cabeças fracturadas dos
jogadores exigiam mudanças. As bolas de couro eram de superfície
bastante irregular, tornavam-se muito pesadas à chuva e rebentavam
frequentemente durante as partidas.
ESTRELA TELEVISIVA
Os primeiros revestimentos de couro sintético surgiram nos anos 60,
mas o purismo dos mais veteranos não via com bons olhos a chegada
destas novas bolas, alegadamente demasiado leves e imprevisíveis.
Esses mesmos olhos ficaram, contudo, maravilhados com a Telstar,
cujo padrão em hexágonos e pentágonos em xadrez providenciava um
efeito visual de rotação aérea magnífico para telespectadores e
utilíssimo para jogadores. Sucessivos campeonatos albergaram novos
aperfeiçoamentos, incluindo a nossa Roteiro, em 2004, até à actual
Europass, que faz neste preciso momento as delícias de adeptos,
espectadores e futebolistas na Áustria e Suíça, sempre com o intuito
de garantir o máximo de rigor no passe, precisão no remate e
espectacularidade de golo.
E é precisamente na espectacularidade que reside o fascínio da bola
de futebol, um objecto tão simples mas tão fulcral para um dos mais
arrebatadores desportos de todos os tempos, no júbilo da vitória, na
resignação da derrota, na exultação da reviravolta... e até no
assombro do insólito, como ilustra
este espantoso vídeo.