Um possante estalido seco, uma sequência de taque-taques ritmados e
um longo e culminante arranhar metálico davam o mote sinfónico para
o início do dia de trabalho em milhões de escritórios, gabinetes e
cubículos de meados dos anos 80. Nesta época de revolução
informática, o computador pessoal era rei, mas o seu despertar
diário não se fazia sem a pequena e fiel disquete.
LER COM VONTADE DE FERRO
Por norma, quando desligamos um computador, o código que executa as
suas funções principais desaparece. O arranque do aparelho ao voltar
a ser ligado não é mais do que o processo de recarregamento deste
código.
Na década de 60, este processo era demasiado moroso para a IBM. A
inicialização de código nas suas enormes máquinas S/370 era levada a
cabo através de cassetes magnéticas, grandes, pesadas e de leitura
lenta. Em 1967, Alan Shugart, responsável pela secção de produtos de
armazenamento de dados, ficou a cargo da idealização e
desenvolvimento de um novo sistema mais rápido, leve e eficaz.
Shugart delegou o projecto em David Noble, engenheiro-chefe do
laboratório, que, após diversas experiências, apresentou um desenho
inovador. O novo formato não usaria a habitual tira de fita
sequencial das cassetes, mas sim um pequeno disco de anéis
concêntricos aos quais as cabeças de leitura teriam acesso livre e
praticamente instantâneo para descodificar o conteúdo gravado. Tal
como na cassete, esta descodificação seria possível através de
partículas de óxido de ferro magnetizadas em padrões na superfície
da película. Por outras palavras, a ideia era basicamente criar um
super-gira-discos que lesse ferrugem a grande velocidade.
O DISCO DO FUTURO É QUADRADO
Um ano depois, a IBM preparava o anúncio público do seu novo e
revolucionário "disco de memória", mais leve do que uma caneta e
capaz de carregar até 81,6 KB de dados, o equivalente a cerca de
3000 cartões perfurados ou 50 páginas A4... com uma taxa de erros
elevadíssima devido ao pó que se acumulava na película magnética. A
equipa de Shugart rapidamente criou um invólucro quadrangular de
plástico e tecido para resguardar a delicada superfície do disco, um
conceito que se mantém ainda hoje.
Felizmente, o tamanho desmesurado do disco não se manteve. De 8
polegadas de diâmetro, passou a 5,25 polegadas em 1976, fixando-se,
seis anos mais tarde, nas 3,5 polegadas propostas pela Sony, formato
que vingaria na década seguinte. Mas não foi fácil - a indústria só
adoptou este modelo quando a Apple escolheu a solução da
multinacional japonesa para equipar o seu afamado Macintosh. Poucos
anos depois, a própria IBM já integrava este tipo de disquete em
todos os seus PC.
"PLEASE INSERT DISK 23 IN ANY DRIVE"
Apesar do aumento de capacidade da disquete com o passar dos anos,
cada vez mais jogos e aplicações ultrapassavam o espaço máximo de
armazenamento. A presença de unidades de leitura externas era
frequente nos anos 90, mas pouco faria prever as 15 disquetes de
jogos como Beneath a Steel Sky para o Commodore Amiga ou as 45 para
a instalação do Office 97. Os pulsos doridos dos utilizadores
clamavam por mais espaço.
Esperança vã. A comum disquete de alta densidade não passou dos
habituais 1,44 MB, se bem que algumas variantes, como as Zip e
LS-120, tentassem popularizar capacidades de mais de 100 MB. A
Internet de banda larga, os cartuchos de memória USB e a fortíssima
redução no preço dos CD graváveis depressa anularam este último
sopro de vida, um destino impiedosamente selado pela Apple ao lançar
em 1998 o iMac, o primeiro computador de massas sem leitor de
disquetes.
Hoje, a disquete vive o seu crepúsculo, mas deixou-nos um legado que
nos acompanha todos os dias - o ícone da disquete, no qual clicamos
sempre que guardamos documentos numa aplicação informática. E que
tal transformar este símbolo de armazenamento digital em
armazenamento físico portátil?
Contemple pois um vídeo de quem se empenha em levar a herança da
disquete para todo o lado.