Simpático, bonacheirão e cheio de energia, prestava-se a ajudar
qualquer pessoa vinte e quatro horas por dia, fosse qual fosse a
circunstância, sempre sobre a sua especialidade: o Microsoft Office.
O seu nome era Clippit, mas todos o conheciam por Clipe, Clipezinho,
Assistente, Bonequito, Palhaço, Palermice da Treta, Estupidez
Irritante, Porcaria do Caraças ou simplesmente Grande Filho da #&$%!
Mas porquê tanto ódio?
OBRA DO DEMO...?
"Parece que está a tentar escrever uma carta. Precisa de ajuda?",
exclamava alegremente o Clipe perante a surpresa dos primeiros
utilizadores do Office 97. Não, por acaso até nem era uma carta, era
um memorando interno. E eu não estava a "tentar"; ia mesmo
escrevê-lo se não fosses tu a interromper. Mas, já agora, diz lá
então como é que podias ajudar se fosse uma carta? Ah, mudavas a
formatação toda da página para ficar igual a uma carta? E punhas
logo os estilos que pensas que são certinhos? E se eu os quisesse
mudar? Hmm, assim facilmente não dá? Bom, então se eu depois
precisar de uma carta, faço-a do zero. Agora, vai-te lá embora e não
me incomodes. "O Word proporciona vários modelos de memorandos
atraentes..." Ahhhh! Não quero saber de modelos, quero escrever eu.
Desaparece e deixa-me escrever os tópicos do texto! Pronto, o
primeiro já está, vamos ao segun... "Parece que está a tentar
escrever uma carta".
...OU DEMO DE UMA GRANDE OBRA?
Cinco anos antes, nos laboratórios da Microsoft Research, a reacção
era diametralmente oposta. Reinavam sorrisos entre os diversos
colaboradores da demonstração interna de um dos projectos em desenvolvimento,
satisfeitos com a espantosa inteligência do sistema que tinham sido
contratados para testar. O seu nome era Lumiere.
Atrás dos vidros de observação, também os investigadores se sentiam genuinamente felizes. O Lumiere iria deitar por terra as barreiras
entre utilizador e computador, pois, observando a acção ou inacção
de cada pessoa ao trabalhar com um determinado programa, era capaz
de identificar os pontos em que essa pessoa sentia mais dificuldade
ou indecisão e apresentar um conjunto de sugestões adequadas. Estas
apareciam em pequenas janelas que não chamavam demasiado a atenção e desapareciam após algum tempo se não fossem usadas, até pedindo desculpa pelo incómodo. Além disso, não só o utilizador podia
facilmente definir a frequência destas sugestões, como o próprio
Lumiere aprendia conforme o utilizador as seguisse ou não. E mais! Ao
fechar-se um programa, o sistema podia mesmo apresentar um tutorial
personalizado e pronto a imprimir sobre as áreas em que o utilizador mais
tinha demonstrado insegurança. Era potencialmente o tutor perfeito.
Ajuda contextual com auto-aprendizagem? Controlo sobre a frequência
das sugestões? Janelas que não estorvam e são tão bem educadas que
até pedem desculpa pela interrupção? Nada disso fazia parte do
Assistente do Office 97, a primeira grande implementação do projecto Lumiere num
produto da Microsoft. O eterno sorriso do Clipe aumentava ainda mais
a frustração sempre que o trabalho dos utilizadores era interrompido
com recomendações inúteis, mas o pior estava para descobrir:
não havia maneira simples de se desactivar permanentemente o
Assistente.
AFINAL, NÃO SE FEZ LUZ
Num só golpe, o Lumiere acabara de conhecer o amargo sabor do
corporativismo. A sua implementação no Office tinha sido fortemente
truncada e subjugada às pressões de vários departamentos da
Microsoft, que optaram pela presença fixa e constantemente animada do Clipe
e demais Assistentes. O cinismo da multinacional chegou ainda mais
longe quando, anos mais tarde, em resposta à ira dos utilizadores,
fez da possibilidade de se desactivar o Clipe uma das grandes
vantagens amplamente publicitadas do Office XP.
Hoje, o Office 2007 já erradicou por completo o Assistente, mas há
quem ainda o relembre com nostalgia. Afinal, apesar dos seus lapsos, muitos foram os trabalhos, artigos e teses que se escreveram até
altas horas da madrugada na companhia atenta do Clipe ou dos seus amigos.
Não serão assim tantos esses trabalhos, mas sem dúvida mais do que
os que tenham sido criados com uma das maiores catástrofes de
usabilidade na história da Microsoft: o Bob, um projecto de 1995 que
tentou substituir todo o Windows com um desenho animado interactivo,
repleto de personagens bizarras, sugestões intermináveis e lentidão
exasperante. Conheça esta atrocidade em dois minutos e veja do que
se safou com o simpático Clipe.
Ruben Allen [2008-11-10 10:31:00] Lembro-me que para mim era algo deveras fascinante nessa altura, nunca me ajudou em nada, mas gostava da companhia dele.
Rodolfo Dias [2008-11-05 11:31:00] Apesar de muito novo ainda me lembro dos maravilhosos assistentes do Office aos quais muito "mexi" para ver todas as animações que eles tinham! Recordo me perfeitamente a partir do momento em que tive o meu primeiro PC. Enfim, bons velhos tempos...
Vitor Seabra [2008-11-05 09:48:00] Eu penso que a intenção de criar estas personagens foi a melhor, no entanto quando eu estava concentrado em algum trabalho mais "pesado" a minha vontade era a de enviar todos os "intrometidos" assistentes para a lua, mas é certo que tb deixaram algumas saudades.
Júlio Magalhães [2008-11-04 17:48:00] De facto acaba por me devolver à memória, de forma algo nostálgica, os trabalhos que fazia para a faculdade. Por momentos distraía-me a testar os vários bonecos provocando-lhes diversos estímulos para ver como cada um reagia às mesmas situações. Acabava por servir como descompressor numa madrugada de trabalho árduo..
Excelente Artigo
Maria João [2008-11-04 17:30:00] Era mesmo irritante! Nos meus trabalhos para a faculdade durante as longas madrugadas acabava por desistir do word e abria o notepad. Só assim conseguia sentir tranquilidade para conseguir escrever e explanar à vontade. Realmente só a Microsoft para conseguir irritar tanto as pessoas... Relativamente ao Bob não conhecia tamanha estupidez. Artigo muito bom! Parabéns!
César Martins [2008-11-04 16:58:00] Em alguma ocasiões era um bocado chato, mas o office sem esta componente não é o mesmo.
Francisco [2008-11-04 16:48:00] Sim, lembro-me do cãozito. Era mesmo irritante...
Estou a programar agora algo parecido para um cliente. Não é assim tão dificil...
Aníbal Costa [2008-11-04 16:36:00] Por acaso, tenho muito boas recordações de um trabalho que fiz para a faculdade com o gato (Trinks, ou Tinks, já não me lembro) sempre a olhar. Começava o gato a ronronar e lá me vinha o sono. Bons tempos,.,