"Não vais conseguir, velho abutre!", disparam os olhos afilados do
primeiro-ministro John Major. "Desta vez, não levas a melhor, bife
teimoso!", responde o semblante firme do presidente Jacques Chirac.
"Discutam à vontade, que eu já vos digo das boas!", anuncia com
desdém o olhar carrancudo do chanceler Helmut Kohl. Os três grandes
da Europa chegavam a um impasse, mas Jacques Santer, presidente da
Comissão Europeia, era peremptório — ninguém sairia dali enquanto a
moeda única europeia não tivesse um novo nome.
Perante este ultimato, reacende-se o debate entre os chefes de
governo do Reino Unido, França e Alemanha, a tal ponto que os
representantes dos restantes doze estados-membros são praticamente
remetidos ao silêncio. É véspera de fim-de-semana, em meados de
Dezembro de 1995, no Palácio Municipal de Congressos, em Madrid,
onde decorre a cimeira do Conselho Europeu. Do enorme pacote de
propostas a discutir ao longo de dois dias, a atribuição de uma nova
designação ao ECU, unidade monetária europeia vigente até àquela
data, é uma tarefa absolutamente prioritária. Afinal, como se
haveria de preparar uma campanha de marketing internacional sobre
a moeda única sem um nome claramente definido?
EUROPA CAPRICHOSA
Chirac não tinha qualquer interesse em mudar o nome do ECU, pois era
idêntico ao da antiga divisa francesa écu, o que naturalmente
beneficiaria a transição para o novo sistema monetário no seu país. Kohl
achava um disparate, não só devido ao excessivo francesismo da
designação, como também porque em alemão significava "vaca
electrónica" (sorrindo, António Guterres nem precisou de tirar o seu
trunfo da manga e explicar por que motivo "ecu" não resultaria em
Portugal). Por seu lado, John Major, que meses antes tinha sugerido
prefixar as moedas nacionais com "euro" (ex. euromarco, eurolibra,
eurofranco), inclinava-se agora para um só nome de valor histórico
renascentista, como ducado, coroa ou, sobretudo, florim. Ao ouvir
isto, Chirac até pareceu empalidecer — nunca o seu povo aceitaria o
nome de uma divisa que os invasores ingleses tinham imposto séculos
antes quando controlaram parte da região costeira francesa.
Os ânimos atiçavam-se, pelo que, como anfitrião, o primeiro-ministro
espanhol Felipe González tentou propor um consenso. Que tal apenas a
palavra "euro", abreviada de "Europa"? Era simples, neutra e
pronunciava-se de forma semelhante em todos os idiomas da UE, um
facto que cada um dos quinze representantes comprovou ao proferi-la
individualmente diante de todos os outros. Sempre fora considerada
uma opção banal e desinspirada, mas costumava surgir em segundo
lugar nos inquéritos de opinião. Porque não este nome? Depressa a
proposta foi recolhendo o acordo dos presentes, momento em que
Guterres, radiante, aproveitou para rematar a sugestão do seu hermano
com chave bíblica: "Euro, tu és euro e sobre este euro edificaremos a
União Europeia!".
NUMERÁRIO PARA O QUE DER E VIER
Só que mais fácil falar do que fazer, sobretudo para o belga Luc
Luycx e o austríaco Robert Kalina, ao depararem com o batalhão
labiríntico de parâmetros e requisitos protocolares europeus que
lhes foi imposto quando participaram no concurso para o desenho das
novas moedas e notas. Não podia haver referências a monumentos
nacionais; personalidades, muito menos; todos os países da UE tinham
de figurar; a sigla do Banco Central Europeu precisava de ser
grafada em cinco línguas nas notas; o nome "euro" tinha de constar
em alfabeto latino e grego. E era preciso dar atenção especial à
possibilidade de que outros países viessem a aderir à Zona Euro.
Mas o desafio valeu a pena. Cada qual vencedor da sua respectiva
competição internacional — Luycx na numismática, Kalina na notafilia
—, o trabalho dos dois está patente nos mais de 100 000 milhões de
moedas e notas de euro que hoje, dez anos depois do Dia E, são
usadas por quase 500 milhões de pessoas em todo o mundo... e não só
como fulcro para a estabilidade económica europeia, mas também para
estabilidades de outra ordem, como comprova o vídeo abaixo. Pois mesmo estremecida pelas circunstâncias, a moeda da Europa tudo fará para jamais tombar.
Só mais uma coisa.. não consigo fazer comentários no firefox.
Pedro Soares [2009-01-14 15:40:00] Historia fantastica. Uma palavra de homenagem para a capacidade e paciência demonstrada pelos artistas gráficos que as desenham. Podem demorar meses a finalizar uma ilustraão, a maior parte das vezes desenhando à mão e a uma escala gigantesca intrincados padrões a preto e branco que depois de impressos e reduzidos ao tamanho de um nota irão dificultar a sua falsificação.
Aguardo a continuação desta história. Já ouvi dizer que há mais para contar...
Maria Correia de Campos [2009-01-14 15:25:00] Parabéns pelo artigo! Gostava só de acrescentar que os outros países também apresentaram objecções na reunião. Os belgas e holandeses gostavam da opção por euroliras, eurofrancos, etc, a Finlândia estava disposta a qualquer nome desde que não fosse rublo (por causa da invasão da Rússia na II Grande Guerra) e o Luxemburgo achava que o nome "euro" não era lá muito "très sexy". Mas todos acabaram por aceitá-lo.