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"Para a frente! Para trás! Não, foi demais, só um pouco à frente. Quase, quase... Pronto, é mesmo aí. Então, quem é que me diz na cara que a bola não entrou?"

Uma onda de urros e berros estala imediatamente diante do videogravador, que mais uma vez protege a frágil cassete VHS no seu interior de um bombardeio de perdigotos. Impávida, esta limita-se a fixar na TV a imagem tremelicante do esférico sobre a linha de golo, ignorando o confronto de palavras no estabelecimento. Afinal, já ela própria está embrenhada na sua guerra sem quartel, mas esta à escala mundial — e sem desfecho à vista.

Decerto não era uma guerra que Charles Paulson Ginsburg tinha em mente ao patentear o plano do seu "Sistema e Método de Gravação e Reprodução de Imagem Visual" em 1954. O documento, que marcaria a primeira de sete patentes registadas por este engenheiro californiano ao longo do ano seguinte, anunciava o passo de gigante que a equipa liderada por Ginsburg tinha alcançado na corrida à gravação prática e reutilizável das emissões de televisão.

UMA CICLÓPICA CÓPIA CINESCÓPICA

Na época, só o cinescópio apresentava um método aceitável de retransmitir um programa de TV, mas o processo era manifestamente arcaico: filmava-se a imagem da própria televisão, revela-se o filme, projectava-se esse filme numa tela e filmava-se essa tela com outra câmara que, por sua vez, transmitia em directo. O custo, lentidão e reduzida qualidade da retransmissão eram flagrantes, mas tratava-se da única forma de realizar emissões em diferido, imprescindíveis para que os telespectadores da Costa Oeste dos EUA não fossem obrigados a ver noticiários e programas três horas mais cedo do que o normal.

Uma das opções era a fita magnética, já na altura comum para gravar áudio. Seria também capaz de gravar vídeo? Teoricamente, sim, desde que a frequência de gravação por segundo fosse mais de 250 vezes superior! Resultado: a fita tinha de rodar na cassete com tanta rapidez que depressa se gastava e deteriorava. Charles Ginsburg e a sua equipa deram literalmente a volta ao problema. Que tal se, em vez da fita magnética, fossem as próprias cabeças de gravação a rodar a alta velocidade?

A ideia funcionou, e dois anos depois, na convenção anual de emissoras norte-americanas em Chicago, era anunciado o Ampex VRX-1000, o primeiro videogravador televisivo comercial do mundo. Disposta a pagar os 50 000 dólares do aparelho, a CBS foi a primeira a usá-lo para emitir em diferido à Costa Oeste os 15 minutos do bloco noticioso "Douglas Edwards and the News", gravados numa fita especial de 5 cm de largura denominada Quadruplex. E foi nesse preciso instante dessa tarde de quarta-feira, dia 30 de Novembro de 1956, que nasceu o pai do VHS.

FORMATOS EM GUERRA

Vinte anos depois, o mercado da cassete de vídeo estava em polvorosa. A JVC acabara de declinar a proposta lançada pela Sony aos principais fabricantes para aderirem ao seu novo formato, que se viria a chamar Betamax. O Video Home System (VHS), incompatível com o padrão da Sony, era a resposta da JVC — e o mote para a primeira grande guerra mundial de formatos de electrónica.

A qualidade de imagem das cassetes Betamax era ligeiramente superior às VHS, mas estas últimas gravavam o dobro do tempo e por um preço mais baixo. A Sony atacou então com o Betamax B-II, capaz de gravar tanto como o VHS, mas perdendo a vantagem da qualidade. Por seu lado, o VHS revidou com quatro horas no modo LP, ao que o Betamax respondeu com cinco horas em B-III, rapidamente esmagadas pelas dez horas e meia do VHS SLP/EP... com imagem extremamente búzia e arranhada, mas minimamente discernível. E, para o consumidor, era o que bastava.

Foi nesta avaliação do perfil do consumidor que a Sony falhou redondamente. Ao insistir na qualidade e portabilidade, só podia fazer valer a sua vantagem visual com gravações de uma hora. Já o VHS, mais barato, gravava duas com uma diferença de qualidade negligível para o consumidor; duas horas perfeitas para futebol, espectáculos musicais e longas-metragens, o fulcro do gigantesco mercado emergente de aluguer de vídeo. Em 1988, a Sony finalmente cedeu, com o lançamento do seu primeiro videogravador VHS.

Hoje, depois do advento do DVD, o VHS deixou de existir comercialmente, relegado ao mercado da segunda mão e das cassetes-virgem, mas o seu testamento como pedra de toque do entretenimento televisivo e videográfico de toda uma geração estará sempre patente não só no trabalho pioneiro de Charles Ginsburg, como também na identidade inerente da própria década de 80... como atesta o alucinante anúncio abaixo.



Miguel Franco [2009-03-20 20:25:00]
E não se esqueçam dos LaserDisk (http://img.tfd.com/cde/_LDISC.GIF aqui numa imagem comparada com um CD), e, para mais informação, procurem no wikipedia. É deveras interessante.
Quando ao Beta, não se esqueçam que ainda é muito usado no meio profissional, como na RTP.
Pedro Luiz de Castro [2009-03-17 20:25:00]
Boa noite
Não há referência ao facto da indústria pornográfica norte-americana tem optado pelo VHS. Não são de forma alguma negligenciáveis os profundos efeitos dessa escolha na vitória do VHS, já que levaram naturalmente à compra de mais leitores VHS e depois à retumbante vitória deste formato.
Hugo [2009-02-20 23:53:00]
O armazenamento on-line será certamente o futuro. Resta a nostalgia daqueles VHS que tenho guardados e que utilizava para revisitar autênticas maratonas de desenhos animados e clássicos de futebol...Já é uma colecção tal como o são aqueles "pratos" que se podiam colocar no gira-discos para ouvir música. Depois vieram os CD´s, os MP3, os downloads da Internet...

Sinal dos tempos...
Rúben Alvim [2009-02-17 12:46:00]
Em resposta ao João, a Sony cometeu de facto o erro de não licenciar facilmente o seu formato a outros fabricantes de videogravadores, algo que a JVC fez agressivamente assim que entrou no mercado (e tinha de ser, pois lançou o VHS cerca de um ano depois do Betamax da Sony, uma eternidade em termos comerciais).

Daí o preço normalmente mais baixo das VHS e a presença em mais lojas (e mais abrangentes, em vez de nichos de especialidade). Não terá sido o único factor da vitória do VHS (que cimentou o seu sucesso devido a várias circunstâncias; não apenas uma), mas certamente que inflenciou a guerra a seu favor.
Vitor Marques [2009-02-17 09:54:00]
Que saudades do VHS! mas por outro lado bem hajam os Blu-Ray, com a alta definição. E desta vez a Sony saiu vencedora na luta HD.
Vamos ver até quando vai durar este novo formato.
Manuel Castro [2009-02-16 19:47:00]
Que boas recordações.
Ainda tenho guardado em sistema Beta (claro que já armazenei em DVD) a Final da Liga dos Campeões em Viena, Austria, quando o FC Porto se sagrou Campeão Europeu em 1987.
António [2009-02-16 18:51:00]
Desta vez, na guerra da alta-definição, ganhou a Sony com o Blu-ray, que realmente é fantástico. Mas já estão a aparecer clubes de vídeo online com filmes HD a 4 euros e tal... Vamos a ver se a malta ainda quer guardar filmes em suporte físico, mas não tenho a certeza. Só mesmo os livros é que são quase imunes a isto - há qualquer coisa especial no acto de manipular um livro...
Miguel Gonçalves [2009-02-16 16:14:00]
Até me vêm as lágrimas aos olhos quando me lembro das vezes que vi Indiana Jones com o logo do C1 no canto superior da TV... :)
Joao [2009-02-16 16:00:00]
Desculpem lá mas falta uma parte mto importante neste artigo q eh o facto de a JVC permitir o uso da VHS quase de borla durante os primeiros 10 anos. coisa q a sony nunca fez. Foi esta a verdadeira razao da vitória da JVC e da VHS, sobre as Beta da Sony.
Paulo Ribeiro [2009-02-16 15:33:00]
Muito interessante.
Ainda tenho lá umas caixas cheias de cassetes com filmes gravados da TV e com capas tiradas de revistas.
Júlio Magalhães [2009-02-16 15:26:00]
Muito bom!
Ainda me lembro da cultura do VHS, os imensos acessórios que alguns tinham como o rebobinador automático, uma maquina limpeza das cabeças do vídeo, etc.. Agora o DVD.. o que virá a seguir? se calhar nada.. provavelmente num futuro próximo estará tudo guardado online, sem suporte físico.. Vamos ver o que acontece!
Um abraço
JM
Filipa Guimarães [2009-02-16 15:04:00]
Só para dizer que o último lançamento comercial da VHS foi com o filme "Uma História de Violência", em 2006. Depois disso, o mercado do VHS para cinema esfumou-se de vez, mas ainda vou guardar a minha colecção. Inté!
José Eduardo Ferreira [2009-02-16 15:02:00]
Interessante artigo e cheio de bom pormenor (mas um pouco longo para o vosso hábito :). Nos anos 80 eu era um dos que defendia com unhas e dentes o betamax e foi com grande pena que vi essas cassetes a desaparecerem paulatinamente dos videoclubes. O formato merecia melhor. Obrigado pelo regresso ao passado!
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