"Portanto, para irem ao Google, basta escreverem moi.google.com".
Ninguém levanta o sobrolho, ninguém se ri à socapa, ninguém comenta
com o colega do lado a incompetência da professora. Afinal, é
preciso ser-se muito ignorante para afirmar que os endereços da
Internet começam por "moi". Mas todos os alunos mantêm-se serenos e
apontam as palavras da docente. Hoje, nesta aula de Introdução à
Informática, em Março de 2009, as crianças estão a aprender a
navegar na Mina de Informação (MOI), o nome com que há 20 anos um
jovem cientista baptizou aquela que viria a ser a rede digital que mais
revolucionaria o mundo. Ou será que não?
Esta sala de aula não existe — pelo menos na nossa realidade, onde
convivemos diariamente com a World Wide Web. Mas se o investigador
britânico Tim Berners-Lee levasse avante a sua primeira escolha, a
"grande teia" não existiria tal como a conhecemos. Continuaria a
fazer inevitavelmente parte das nossas vidas, mas seria uma "grande
mina".
A MINA DOS TEUS SONHOS
Março de 1989. Ao som do rápido matraquear das teclas, Berners-Lee
nem repara no ronco impaciente do estômago a clamar pelo almoço, tão
mergulhado está o seu pensamento no ecrã cinzento diante de si. Após semanas de investigação documental, o
seu trabalho está prestes a passar da teoria à prática — já se
imagina a conseguir criar a primeira página na Internet com
hiperligações, a navegar através dessas hiperligações e a aceder a
essa página com um sistema universal. E até já idealizou nomes para
cada um dos protocolos que irá programar para poder executar estas
acções: a Linguagem de Marcação de Hipertexto (HTML) vai servir para
criar a página; o Protocolo de Transferência de Hipertexto (HTTP)
possibilitará a navegação entre hiperligações; e o Localizador
Universal de Recursos (URL) vai permitir encontrar a página na
vastidão da Internet.
Mas qual o nome a dar a todo este sistema pioneiro, capaz de interligar de
forma global, intuitiva e completamente harmoniosa todas e quaisquer
páginas de informação, seja qual for o local em que se encontrem na
Internet? Pensativo, o cientista pára de teclar e, pela primeira vez
durante várias horas, desvia o olhar do monitor preto. Se a ideia é
criar um gigantesco repositório de informação acessível a todos,
porque não chamar-lhe "Malha de Informação" ou até mesmo "Mina de
Informação"? É isso mesmo, uma mina de conteúdos, uma preciosa
jazida de conhecimento. Pronto, está escolhido!
O CERN DA QUESTÃO
Mas Tim Berners-Lee acaba por cair em si. A paisagem franco-suíça,
visível através das grandes janelas do Laboratório Europeu de Física
de Partículas, onde trabalha, relembra-lhe um pormenor linguístico
crucial. Ao abreviar a designação inglesa "Mine of Information", o
cientista terá de apresentar o seu projecto à administração com a sigla "MOI", ou seja, a palavra "eu" em francês.
Se usar "The Information Mine", a abreviação será ainda pior: "TIM",
o seu próprio primeiro nome! Marcas fatais de narcisismo que
deitariam por terra o financiamento do projecto, já pouco
convincente à partida, pois o CERN não vê grande interesse em sistemas de hipertexto na Internet. E Berners-Lee está ciente de que inventar é
fácil; obter apoios, financiamento e recursos humanos perante a rigidez
orçamental da instituição... isso sim, é o verdadeiro obstáculo.
Portanto, o nome terá de ser outro. Então qual é a essência do
sistema? O que motivou a sua criação? A mente do cientista recua dez
anos... Há muito que se sentia frustrado com a enorme quantidade de
informação académica tão dispersa no CERN. Diferentes investigadores
de diferentes países traziam os seus próprios computadores e
programas, frequentemente incompatíveis entre si. A tão apregoada
Internet multiplicava-se em complexos servidores de Telnet, Usenet, FTP e Gopher, que
não eram interoperáveis. Não haveria maneira de integrar todos estes
sistemas de informação num único sistema global, completamente
interligado, sem núcleo central, sem limites de crescimento,
facilmente visualizável e ainda mais facilmente editável? Uma teia
de informação à escala mundial? Uma Web?
Estava decidido. Nascia então o conceito da World Wide Web, mas Tim
Berners-Lee ainda precisaria de quase um ano para desenvolver os
alicerces da WWW. O primeiro servidor de Web, o primeiro browser, o
primeiro editor de HTML e a primeira página na Web tiveram origem no
próprio posto de trabalho do cientista. É Natal de 1989, e este
visionário descansa, pousa o café, observa os frutos do seu
trabalho e pensa no futuro. Seria capaz de imaginar que apenas vinte
anos depois a sua página na Web, que tem diante de si, seria a primeira de mais de 100
milhões que catalisariam todo um novo modo de vida à escala mundial?
Talvez. Uma visão a que um anúncio televisivo da operadora norte-americana AT&T em 1993, abaixo ilustrado, parece
ter ido beber directamente para se consagrar na história como um
deslumbrante marco profético da revolução da WWW.
Um abraço
enVide neFelibata [2009-03-23 21:33:00] Poderia-se praticamente afirmar que o uso do 'www' é desnecessário porque actualmete os browsers partem do principio que quando alguém se refere a 'maxideia.com' se refere na realidade a 'http://www.maxideia.com/', mas tal deve-se ao facto de ser mais comum o utilizador pretender aceder a um website que se localiza na 'www' através do protocólogo 'http'. Poderemos contudo desejar aceder a um website que se localize em 'localhost' e nesses casos torna-se necessário fazer a distinção de local.
ArealDukes [2009-03-23 16:03:00] Julgo que o www era necessário para saber qual a zona em que nos encontrávamos. Existia e existe os domínios locais, numa rede, pelo que comummente baptizamos de nomedaempresa.local. Assim www veio substituir o "local", e adicionar um prefixo e regras onde não existiam! Penso que será a resposta mais plausível que encontrei, mas comentem!
Vitor Seabra [2009-03-23 12:06:00] É sempre bom sabermos a origem de coisas tão importantes como mostra este exemplo. O conhecimento é uma poderosa arma e nunca é de mais. Eu pessoalmente desconhecia esta história e por essa razão é que acho os vossos artigos muito interessantes. Parabêns e continuem assim no bom caminho.
António Cardoso [2009-03-21 13:06:00] Olá a todos. Parabéns pelo artigo. Mais uma vez fica demonstrado que a genialidade não é fortuita mas emana de uma teia de circunstâncias cujo tráfego percorreu um itinerário especial O mais subtil desvio originaria um resultado diferente (melhor ou pior) sendo essa dinâmica, em última análise, o motor daquilo que consideramos, hoje, " futuro".
Tiago Costa [2009-03-21 12:22:00] Para Júlio Magalhães
Na realidade o WWW é completamente desnecessário. O que realmente necessite colocar é o protocolo + domino
Protocolo: HTTP://
dominio: maxidea.com
Muitas vezes o WWW é um subdominio do dominio principal.
Miguel Gonçalves [2009-03-20 17:55:00] Mais uma excelente adição ao dicionário digital...
Miguel [2009-03-20 17:48:00] muito bom o artigo, como sempre, abraço e continuem.
Júlio Magalhães [2009-03-20 15:34:00] Excelente artigo.
Agora uma dúvida:
Tudo bem que a web tem que ter um nome, mas porquê que em todos os domínios temos que escrever essa sigla? porque não apenas o domínio, qual é a necessidade da existência real e prática dessa sigla?
Obrigado e Parabéns
J.Magalhães
Célia Miranda [2009-03-20 15:20:00] Artigo interessante e educativo. Obrigada! Gostei muito do link para a primeira página da internet. Como é que resistiu tanto tempo? É mesmo a original? Cumprimentos!