Palavras, palavras e mais palavras no meio de frases soltas, sem
nexo. "Olá, amigo, tudo bem contigo?". "Já tenho os documentos que o
senhor pediu". "O carro avariou e ficou na garagem". "Concordo com a
vossa decisão".
Há quase meia-hora que este homem rascunha frases à sorte na sua
máquina de escrever. Mas já começa a ver um padrão. E tem 160
caracteres de tamanho.
Friedhelm Hillebrand tira a página A4 da máquina e observa-a de alto
a baixo, atentando nas sequências de letras, números, espaços e
sinais de pontuação que digitou. Praticamente todas as frases têm
menos de uma linha de comprimento e mesmo as mais extensas não
ultrapassam as duas linhas. Mas Hillebrand não pode basear-se em
linhas; precisa de um número fixo. Na sua mente, o valor final ganha
cada vez mais forma até culminar numa decisão. Nesta sua casa em Bona,
na Alemanha de meados da década de 80, este engenheiro
electrotécnico acaba de definir o número de caracteres a usar no
recém-projectado Serviço de Mensagens Curtas (SMS) — e de uma
assentada configura os alicerces de toda uma linguagem que a próxima geração usará
no dia-a-dia pelo mundo inteiro.
"SUFICIENTE... PERFEITAMENTE SUFICIENTE"
Este pequeno teste tipográfico de Friedhelm Hillebrand não foi um
acto isolado, mas sim o tira-teimas prático de meses de discussão no
Grupo Especial Móvel (GSM), entidade criada pela administração
europeia de correio e telecomunicações para idealizar e desenvolver
um sistema digital celular que abrangesse todo o continente. E como
era hábito em qualquer projecto europeu, um simples acordo de
princípios exigia uma profusão de reuniões para debater resmas de
documentação, especificações e protocolos. Já se tinha estipulado
que a nova rede móvel teria capacidade para suportar o envio de
mensagens de texto no mesmo canal usado para as comunicações de voz,
mas quanto mais curto esse texto, melhor. Só que curto até que
ponto? Qual era o mínimo de caracteres necessário para comunicar
ideias numa única mensagem?
"100!", dizam uns, "250!", argumentavam outros. Para Hillebrand, a
resposta estava num meio-termo. Se as SMS iam ser usadas sobretudo
pelas operadoras para enviar notificações sobre o estado da rede, o
texto seria forçosamente sintético, com frases simples e
curtas, como nos postais ou telexes. 160 caracteres chegavam para
esse efeito e até sobravam para utilizadores mais avançados que de
vez em quando quisessem comunicar por SMS uns com os outros. Porém,
nunca Hillebrand seria capaz de imaginar que, vinte anos depois,
esse "de vez em quando" seria a febre diária de 2,4 mil milhões de
utilizadores de telemóveis no planeta.
TEM UMA NOVA MENSAGEM: "MERRY CHRISTMAS!"
Mas esta cavalgada exponencial de popularidade não arrancou de um dia
para o outro. Foi com o texto "Feliz Natal" que em 1992 o inglês Neil Papworth enviou a primeira SMS de sempre, mas nessa
altura não só era difícil ou impossível enviar SMS entre diferentes
operadoras, como a lentidão de escrita nos teclados dos telemóveis
pouco aliciava os utilizadores.
Mas os jovens, verdadeiros impulsionadores das novas tecnologias,
depressa aderiram em massa ao SMS, pois, pelo preço de uma chamada, podiam
enviar dezenas de mensagens de texto. Além disso, habituados ao
linguajar abreviado dos chats da Internet, facilmente
encaixavam longos discursos, explicações e até poemas em apenas 160
caracteres. Bastaram poucos anos para que a média mensal de SMS por
utilizador disparasse de menos de uma para mais de cem. Hoje, três
em quatro pessoas no mundo com telemóvel usam activamente estas
mensagens.
A este ritmo, até onde irá chegar o SMS? Várias extensões ao formato original,
como o EMS ou o MMS, tentaram substituí-lo, mas a universalidade e
simplicidade do SMS deverão mantê-lo na crista da onda cultural
durante muitos anos. E que dizer daquela tal barreira da lentidão de
escrita no teclado? Também ela começa a cair, como orgulhosamente
proclama o vídeo abaixo.
Viviane
Ana Catarina Freitas [2009-06-11 23:25:00] Obrigado pela curiosidade. E querem saber mais uma? O som de aviso de SMS dos primeiros Nokias era a sigla "SMS" em código Morse :)
Rui Monteiro [2009-06-11 23:23:00] Outro bom artigo. Lembro-me bem da grande novidade de se poder enviar texto nos minúsculos ecrãs dos telemóveis da década de 90. Era como se fossem mini-emails. Nunca pensei que a moda pegasse, era muito difícil de escrever, mas a tecnologia surpreendeu. Continuação de bom trabalho!