No pátio da Universidade Estadual de Portland, nos EUA, dezenas de
alunos saboreiam o suave arejo de Verão que abana as árvores
frondosas do recinto. Carolyn Davidson, estudante de design,
já atravessou este espaço centenas de vezes, mas hoje, ao
apressar-se para uma reunião no final deste segundo semestre lectivo
de 1971, a jovem de 29 anos está, sem se dar conta, a poucas
passadas de fixar para sempre o seu nome na história moderna das
artes gráficas.
DOIS DÓLARES POR HORA
Semanas antes, Phil Knight, professor de Contabilidade na
instituição, reparara nos trabalhos desenhados por Carolyn e
convidara-a para um projecto a tempo parcial. Knight, praticante de
atletismo, tinha fundado com o seu treinador uma companhia de
sapatilhas de alta competição. O empreendimento, denominado Blue
Ribbon Sports, estava prestes a lançar um novo modelo de sapatilha,
para o qual Knight necessitava de um logótipo.
Agora, reunida com os dois homens, Carolyn apresenta as suas
propostas gráficas. Como as caixas das sapatilhas têm de ser
impressas já no dia seguinte, não há tempo para decisões
prolongadas. Phil Knight aponta o dedo e faz a sua escolha. "Não o
adoro, mas vou-me habituar a ele", diz perante o olhar ansioso de
Carolyn. Eis o logótipo escolhido: um simples traço em curva bem
carregado, lembrando uma pincelada de dinamismo, um visto de
energia, um ímpeto alado. Pelos seus serviços, a estudante cobra um
total de 35 dólares. 35 anos depois, este pequeno símbolo representa
por si só uma marca mundial avaliada em mais de três dezenas de
milhares de milhões de euros. Carolyn desenhara o logo da Nike.
SWOOSH
O elemento gráfico da Nike assume-se hoje como verdadeiro ideograma,
pois é um dos poucos símbolos capazes de identificar uma marca em
praticamente todo o planeta sem necessidade de qualquer texto.
Contudo, este feito não se alcançou de um dia para o outro. A
genialidade do trabalho gráfico da jovem artista foi preponderante
para conferir à marca uma imagem universal imediatamente
assimilável, mas toda a gigantesca máquina corporativa que a empresa
construiu ao longo dos anos teve também um papel crucial. De facto,
só em 1995 o famosíssimo "swoosh" foi registado individualmente como
imagem de marca, prescindindo do texto "Nike".
Esta necessidade de identificação gráfica instantânea é inerente ao
homem como ser social. Desde a simbologia de qualquer religião aos
emblemas dos estandartes dos antigos exércitos, tomar o todo por um
logo sempre se comprovou fundamental para transmitir poder, medo,
respeito, capacidade, honra ou força de carácter depois de um único
vislumbre. O moderno universo das imagens de marca não é mais do que
a transposição dessa chamada visual para a arena do mercado de
massas.
MÁQUINA LOGOMÁQUICA
Repare como este apelo se repete consigo todos os dias. Quantos
logótipos lutaram pela sua atenção desde que acordou até estar a ler
este artigo? Quantos consegue detectar se tirar os olhos do monitor
durante um instante? Todos tentam, com maior ou menor sucesso,
ganhar destaque e ficar com uma fatia do bolo do seu subconsciente,
pois é de um bom logótipo que advêm os primeiros e principais
valores de uma marca.
Mas como integrar estes valores num símbolo facilmente perceptível e
imediatamente diferenciável? Experimente conceber o seu logótipo
pessoal e aperceba-se da verdadeira dimensão do desafio. Forma,
cores, traço, tipo de letra, todos se têm de se conjugar para
transmitir a personalidade, a atitude, a essência humana que apenas
lhe pertence a si. Uma essência a cuja evolução o logótipo se deverá
adaptar ao longo das décadas, como ilustra este fascinante vídeo. Afinal, não basta viver — acima de tudo,
o logo tem de sobreviver aos rigores do tempo.