PAM! Quatro pares de narinas nem têm tempo de sentir o cheiro a
pólvora seca no ar antes de serem bruscamente invadidas por uma
torrente de água salgada. Quatro pares de braços rasgam uma barreira
líquida e empurram-na com toda a força para trás. Quatro pares de
ouvidos vão captando os gritos de incentivo da multidão nas bancadas
entre cada braçada nas águas do Mar Báltico.
CORRIDA PARA A VITÓRIA
É sábado, 6 de Julho de 1912, o auge da quinta edição dos Jogos
Olímpicos, na Suécia. Perante várias centenas de espectadores,
decorre neste preciso instante a sétima série das eliminatórias dos
100 metros livres de natação. Quatro atletas competem pela passagem
aos quartos-de-final, mas as atenções centram-se em apenas dois: o
sueco Harald Julin e o italiano Mario Massa, que nadam praticamente
a par. A chegada está cada vez mais próxima, os dois dão o último
esforço, esticam os braços... e eis que o relógio marca 1 minuto, 11
segundos e 8 décimos para ambos. Julin e Massa, exultantes, passam
excepcionalmente à fase seguinte da competição.
Nestas Olimpíadas de 1912, o Comité Olímpico Internacional
orgulhava-se do rigor da medição dos tempos das provas. Os relógios
eléctricos semi-automáticos e as primeiras versões do photo
finish eram as grandes novidades tecnológicas dos Jogos, mas o
empate de Julin e Massa comprovou imediatamente que o décimo de
segundo tinha os dias contados como elemento decisivo da vitória.
Oito anos depois, nas Olimpíadas de Antuérpia, na Bélgica, o
cronómetro de quartzo já possibilitava a marcação de tempos ao
centésimo de segundo em caso de desempate. Em 1948, na Suíça, a
célula fotoeléctrica ajudava a aprimorar ainda mais o momento da
chegada. Mas, para a natação, a verdadeira precisão só foi alcançada
em 1968, nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, com a instalação
de cronómetros integrados em placas electrónicas sensíveis ao toque
de cada nadador.
QUANTO TEMPO O TEMPO TEM?
Contudo, nada disto seria possível sem o trabalho pioneiro de um
homem. Em 1821, Nicolas-Mathieu Rieussec, relojoeiro da corte
francesa, regista a sua patente de um "relógio ou medidor de
distância percorrida". Capaz de marcar o tempo em quintos de
segundo, este pequeno engenho aplicava duas minúsculas gotículas de
tinta no mostrador para registar cada intervalo de tempo. Duas
décadas depois, com a invenção de um sistema de reposição do tempo a
zero, o suíço Adolphe Nicole acerta as agulhas do último dos
elementos fundamentais do moderno cronómetro.
Hoje, mais do que nunca, o cronómetro é o derradeiro juiz da aldeia
olímpica, o decisor da diferença entre a alegria do bronze e a
ausência da tão ansiada medalha, entre o sabor da impensável prata e
um corriqueiro terceiro lugar no pódio. Mas, mesmo nestes tempos
vividos em fracções de segundo mais rápidas do que um piscar de
olhos, ainda é possível conseguir-se o aparentemente impossível,
como testemunha
este espantoso vídeo. Pois a glória olímpica não tem
forçosamente de contemplar apenas um vencedor.