Palavras, palavras e mais palavras no meio de frases soltas, sem
nexo. "Olá, amigo, tudo bem contigo?". "Já tenho os documentos que o
senhor pediu". "O carro avariou e ficou na garagem". "Concordo com a
vossa decisão".
Há quase meia-hora que este homem rascunha frases à sorte na sua
máquina de escrever. Mas já começa a ver um padrão. E tem 160
caracteres de tamanho.
Faça uma pausa de alguns instantes no seu trabalho e olhe em volta. Ninguém está a ver? Então chegou o momento de uma experiência cultural!
Endireite-se na cadeira e estenda os braços ao nível do ombro para os dois lados, como se fizesse um "T". Não se esqueça de esticar bem os dedos das mãos. Sente os seus músculos a retesar? Óptimo, pois neste preciso momento, além de estar a promover circulação sanguínea e boa postura, tem entre a sua mão esquerda e a mão direita a medida de toda a força laboral corporativa dos últimos cinquenta anos: a largura média do cubículo.
"Portanto, para irem ao Google, basta escreverem moi.google.com".
Ninguém levanta o sobrolho, ninguém se ri à socapa, ninguém comenta com o colega do lado a incompetência da professora. Afinal, é preciso ser-se muito ignorante para afirmar que os endereços da Internet começam por "moi". Mas todos os alunos mantêm-se serenos e apontam as palavras da docente. Hoje, nesta aula de Introdução à Informática, em Março de 2009, as crianças estão a aprender a navegar na Mina de Informação (MOI), o nome com que há 20 anos um jovem cientista baptizou aquela que viria a ser a rede digital mais revolucionária do mundo. Ou será que não?
"Para a frente! Para trás! Não, foi demais, só um pouco à frente. Quase, quase... Pronto, é mesmo aí. Então, quem é que me diz na cara que a bola não entrou?".
Uma onda de urros e berros estala imediatamente diante do videogravador, que mais uma vez protege a frágil cassete VHS no seu interior de um bombardeio de perdigotos. Impávida, esta limita-se a fixar na TV a imagem tremelicante do esférico sobre a linha de golo, ignorando o confronto de palavras no estabelecimento. Afinal, já ela própria está embrenhada na sua guerra sem quartel, mas esta à escala mundial — e sem desfecho à vista.
"Não vais conseguir, velho abutre!", disparam os olhos afilados do primeiro-ministro John Major. "Desta vez, não levas a melhor, bife teimoso!", responde o semblante firme do presidente Jacques Chirac. "Discutam à vontade, que eu já vos digo das boas!", anuncia com desdém o olhar carrancudo do chanceler Helmut Kohl. Os três grandes da Europa chegavam a um impasse, mas Jacques Santer, presidente da Comissão Europeia, era peremptório — ninguém sairia dali enquanto a moeda única europeia não tivesse um novo nome.